A importância da tireoide na gestação

Nos últimos anos a função da glândula tireoide em mulheres em idade reprodutiva tem alcançado posição de destaque na literatura médica, tanto no período pré-gestacional quanto durante a gestação. Problemas da tireoide são a terceira doença endócrina mais comum (depois da obesidade e do diabetes mellitus) que afeta mulheres dos 20 aos 40 anos de idade. As doenças que atingem a tireoide podem acarretar problemas importantes tanto para a mãe quanto para o bebê: aumento da prevalência de abortamento, hipertensão arterial na gestação, descolamento de placenta, hemorragia pós-parto, parto prematuro, dano cerebral neonatal e retardo mental.

Alterações da função da tireoide podem dificultar a gestação e são uma causa de infertilidade. Assim que a gravidez se inicia, podem aparecer problemas hormonais até então indetectáveis e que resultam de uma série de modificações que ocorrem no corpo da mãe: aumento da proteína que carrega os hormônios da tireoide no sangue, estímulo direto da glândula tireoide pela gonadotrofina coriônica humana (o HCG que é produzido na gestação e utilizado para diagnóstico de gravidez), modificações no metabolismo periférico dos hormônios tireoidianos e mudança na quantidade de iodo no sangue da mãe. O iodo é a matéria-prima para fabricação dos hormônios tireoidianos.

Os hormônios circulam na corrente sanguínea de duas formas: ligados a proteínas ou “soltos”. Quando “soltos”, na sua forma livre, é que conseguem atuar nas células e desempenhar suas funções. Na gestação, como ocorre aumento das proteínas no sangue da mãe, podem sobrar menos hormônios livres. O organismo procura compensar estimulando a tireoide a fabricar mais hormônio, no entanto, devido ao maior consumo pela própria glândula, pela transferência que é feito da mãe para o feto e pela perda através dos rins, que é maior na gestação, pode ocorrer falta da matéria-prima, o iodo. Algumas mulheres podem apresentar excesso ao invés da falta de hormônio tireoidiano. Isso ocorre quando o HCG consegue estimular a tireoide além do normal, podendo causar tireotoxicose.

Por conta dessas alterações, entre as mulheres que já tem hipotireoidismo antes da gestação, cerca de oitenta por cento precisa ajustar a dose da levotiroxina durante a gravidez.

As mulheres com história familiar ou portadoras de doenças da tireoide devem ficar mais atentas ao controle da função tireoidiana antes, durante e depois da gestação. No entanto, todas as mulheres que desejam engravidar devem conversar com seu endocrinologista ou obstetra e acompanhar o funcionamento da tireoide durante todo o período gestacional.



 

Emerson L. Marques
Doutor em Endocrinologia pela USP
Médico Endocrinologista HU – UFSC
Prof. Substituto em Endocrinologia – UFSC

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